sexta-feira, 25 de junho de 2010

É

Além do ponto - Caio Fernando Abreu

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chhuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Lálálá.

Preciso Dizer que Te Amo


Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo

Eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo
Tanto

E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar ao teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo(que amigo...)


É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto

Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira

Eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo, tanto

Blábláblá.

Irmãos

Azuis e bonitos...
Temperamentos tão distintos,
Tão benevolentes...

Mas cada um com seu agir diferente
Personalidades fortes e autênticas
Podendo causar espanto,
Porém nunca machucando.
(Às vezes até pode ferir,
Mas não é por maudade)

Um me lembra a paz,
O outro a turbulência.
O equilíbrio

Dependendo do dia
Pode ser que encontro-o calmo ou irritado,
Mas gosto do seu jeitinho
Assim tão misterioso...

O outro já é um artista.
Mostra-me as belezas por tanto já vivida,
E se passarmos tanto tempo juntos
Pode ser que me perca em pensamentos
E fique cega até demais

Em situações mais perdidas, ou não,
A sua força me atinge;
Bate ferozmente;
Grita comigo;
Acorda-me,
E volto à normalidade

Quando um certo amor de qualquer coisa
Não para de se remexer
Escapa e voa para bem longe,
E fico a contemplar...
Dragões, chapéus, sorrisos;
Eu vejo o que for permitido à imaginação;
E quadros rápidos
Mudam e se fundem tão certamente


Por acaso, se conseguisse ficar no meio do caminho
Confundiria-me com um espelho,
Refletindo para os dois lados
Os tão azuis e bonitos

Irmãos gêmeos;
Irmãos separados;
De alguma forma:
Fazem-me flutuar

T. 20/07/09

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Profissões do amor

Profissões do amor

Começei com Serviço Social, doando-me mais que recebendo; envolvendo-me mais que ser a solução. Procurei compartilhar minha motivação, construir um relacionamento mostrando claramente a minha política de fidelidade, minha voraz vontade de amar e ter companheiros para minhas batalhas; que desfrutasse de minhas ideologias e que caminhassemos para a ascenção. Mas não deu muito certo. Podem ter se confundido com filantropia, ou até mesmo não entenderam. Uma profissão sacrificante, batalhadora e fiel que não tem seus méritos reconhecidos.
Então pensei em outro curso, sem claro abandonar o que já faz parte de mim.
Pensei primeiramente em geografia. Com topografias expondo prazer a cada localidade. Não largando a política, mas talvez esquecendo da fidelidade. Mexendo com a natureza, brincando de Deus no seco e no molhado, assoprando arrepios e provocando errupções. Mesmo assim, não tendo precisões concretas de chuvas, secas e abalos. Mas requer muitas viagens e pesquisas por campos floridos.
Porém, por que não filosofia? A arte do saber, a pulga atrás da orelha do curioso. O saber entender e saber explicar. Com um tabuleiro misturado de idéias nem todas serão damas ao meu pensar; assim, logicamente minhas utopias seriam esquecidas e talvez me entendessem certamente complicada.
E por fim, letras. A brincadeira de encaixes de abecedário formando palavras, frases e pensamentos. Mostrando minha escrita e deixando à vontade para me fazer gênese de inspirações de seus romances. Podem descobrir minha literatura, odiá-la ou venerá-la, ou se quiser eu conto também. Contudo, a letra é perigosa, cheia de nuances, lacunas e ponto final. Uma linguagem malandra que consegue passar desapercebido pelos desatentos, deixando exclamadas interrogações no silêncio das reticências. Ademais, minha comunicação não serve para todas as línguas e assim não fazem de mim radical para conhecer minha raiz.
E o que sou é um amor desempregado.

Thamiris de Oliveira 23/02/10

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ponha fogo

Rasgo tuas roupas
Espalho-te em meus lençóis.
Enrolo os lençóis em ti,
E te aperto,
E te lambo.

Acho o lugar,
Puxo teu veneno.

Acendo um cigarro.

Thamiris de Oliveira 03/05/10

1

Emprestaram-me um livro. Deram-me conhecimento, acrescentaram-me vocábulos e adicinaram confusão.
Peguei o livro sem fé e começei a lê-lo, e continuo lendo-o sem fé.
Tenho o costume de me guiar pelos números das páginas, aos finais para o começo de outro capítulo. mas após ler um pouco, vi que havia algum mistério nessas estórias, e como uma fiel confidente de seus infímos e regulardos mistérios de minha mania, me guardei.
Não sei o final do livro, ainda não acabei. Não sei se vou acha-lo melhor ou pior.
Não tendo respostas àlgumas perguntas, pensei em mim. (Poderia ter pensado em inúmeras criaturas; mas que diabos estou eu sendo a personagem principal? Talvez seja eu a pessoa que tanto que ser entendida e entender).
A incerteza. Algo bom ou ruim? Continuo respirando.
Pensei em representar o amor sendo a água - representam a água como algo curador. E de que cura eu preciso?
E eu neste vasto céu vou caindo, caminhando para o fim. Eu uma minúscula gotícula d`água.
Às vezes flutuo. Pareço voltar a estágios mais iniciais e penso que é assim, pois criança tem nostalgia de felicidade. E vou indo...
Até que penso em encontrar alguém "igual" a mim. A "mesma" doçura, confidência, segredos, intimidades, sensualidades, prazer, tudo uma analogia.
Enfim, achamo-nos. Duas pequeninas gotícolas em um vasto céu. E com a tamanha compatibilidade formamos algo maior e mais concreto. Transformamo-nos em um cristal de gelo visível, balançando sentimentos no ar.
Um cristal de gelo. Uma junção de infinitas substâncias tão forte, maior, concreta e fria.

2

Meu corpo, minha casa, minha proteção.
Minha alma é delicada, precisa de uma casca grossa, mas não tão rígida assim porque se não qualquer beleza por ela pode se quebrar e amedrontar.
Não é à toa que na minha crosta tenho várias feridas. Felicidade para entrar e tudo de mim para sair. (Mas o negócio é tão ruim que elevo-o a um tudo todo ruim).
É tão fácilreclamar, zangar-se e culpar alguém. Mas por que devo culpar pelo que me protege? Talvez prestando, ou não, muita atenção nele, sei que a mim é fiel, pontual e perfeito ao meu modo.
Lembro-me tanto das vezes em que o maltratei e que de tanto chorei, chorei.
Pelo mesmo local que saía as angústias, era o mesmo que me fazia viver às cegas quaisquer das belezas. Foram tantos jorros d`água que aos poucos fazem-me enxergar.
De que me adiantaria chegar a beleza de meus sonhos? Experiências (significativas e verdadeiras?), facilidades, números (realmente a matématica é imortal), conquistas (ou derrotas?), etc. e etc. Até que um dia não controlaria a fome do desejo, da satisfação e tornar-me-ia uma roliça de orgia. (O prazer é invariável, ora inibidom=, ostentador e vulgar, um vil; ora um mágico, passando em frente à cegueira e atuando em bons cenários enconderijos). Poderia ter rédias e cavalgar corações, talvez até mais perdidos que o meu. E as feridas continuariam ali, não sei se mais abertas ou fechadas. O que seria maior? O que entrava ou o que saía - se saísse? Ou só mais o vazio preencher-me-ia?
A crosta é grossa, teimosa demais. Ganhaste um engraçado assustador. Por ser forte e audaz, zombava até demais de aventuras, espelhava-se sempre em sua heroína - sempre foi uma desbravadora. Mas essa crosta é muito teimosa, e diariamente esquecia de sua fina espessura e deixava cair amores. (Não que elanão os quisesse, mas era excessivamente escorregadia, e a heroína ufana não se lembrava que o amor é muito mais escorregadio, e cansada deixava escapar e/ou não lutava pelo amor outra vez).
Consinto que minha casa é uma tremenda harmonia. Com tantos buracos lá dentro, tanta indiferença, tanto egoísmo, tanta mesmice ruim, poderiam prender minh`alma, corroer-me ao máximo. Mas tenho um fiel pedreiro que continua martelando.
Em minha casa há jardins com variadas flores. Posso presenteá-las ou então abusados roubam-na de mim que ao cortarem as flores, o amor grita de dor, pois por enquanto nenhuma flor roubada conseguiu voltar. E as pragas... Difícies de lutar... Agem com maudade, ou não; conscientemente, ou não; mas que preojudicam e aos poucos me envenena. Algumas vezes o ataque é tão ferroz que expulso alguma substância da sua maldade.
Minha alma não tem o que reclamar. Sua casa não transparece toda a sua desordem e, infelizmente, todas as suas belezas.
Estou vivendo e estou bem.